O barco estava pronto para sair de Pirapora, onde, historicamente, o rio São Francisco começava a ser navegável em Minas Gerais. O objetivo era colher amostras e verificar o estado da água que corre na bacia. Mas que água?
Esse foi o primeiro problema encontrado pela expedição do projeto “Opará: Observatório cidadão da qualidade ambiental no médio São Francisco”, para fazer a análise e o monitoramento das águas e reforçar sua preservação. A expedição atrasou dois dias, porque o leito do rio estava muito baixo em plena estação da cheias.
Segundo informou um dos coordenadores do projeto, o pesquisador Maurício Lopes Faria, o rio estava no mesmo nível de agosto do ano passado, no auge da estação seca. A expedição foi marcada na estação chuvosa exatamente para facilitar a navegação.
“Estávamos esperando o rio um pouco mais cheio. Mas está assoreado, com muitos bancos de areia. Nós encalhamos algumas vezes”, afirmou Maurício.
A expedição
Apesar dos contratempos, o pesquisador considera que a expedição foi bem sucedida, principalmente por dar visibilidade ao projeto e levá-lo para perto da comunidade. Depois de partir de Pirapora, o barco Opará fez paradas programadas em Ibiaí, São Romão e São Francisco, no Norte de Minas.
O Opará é um barco-laboratório e serve como base para pesquisas e ações educativas que visam engajar moradores, pescadores e estudantes. Opará é o nome original do rio para os povos indígenas e significa “rio-mar”.
O projeto foi desenvolvido para gerar informação em tempo real sobre a qualidade do rio e fornecer dados para planejamento e gestão dos recursos hídricos. O Opará está no primeiro ano de execução, com a elaboração de um diagnóstico preliminar, e foi planejado para ter quatro de duração. Os pesquisadores pretendem engajar moradores da região no monitoramento ambiental e na construção de alertas.

Espécie invasora da Ásia foi detectada
“Neste momento o principal foco são os macroinvertebrados que a gente coleta na margem. E a gente fez uma pesquisa de larva de mexilhão dourado para ver se ele está presente aí, ao longo de do rio” – diz Maurício Faria.
O pesquisador considera esse o principal achado da expedição: constatar a presença do mexilhão dourado (Limnoperna fortunei), um molusco “exótico”, ou seja, não natural do habitat, invasor, vindo da Ásia. O primeiro exemplar da espécie na bacia do São Francisco foi localizado na divisa da Bahia com Pernambuco, em 2015, em tubulações da usina hidroelétrica de Sobradinho e no eixo norte do sistema de transposição do São Francisco. Depois, o mexilhão foi encontrado em Alagoas e Sergipe.

A presença da espécie invasora pode provocar problemas na biota nativa (o conjunto de espécies que ocorrem naturalmente numa determinada região) e na atividade econômica. Já há relatos de mexilhões dourados entupindo adutoras de água e rasgando redes de pescadores.
“É um invasor muito, muito voraz, que a gente não tinha registro ainda. Causa muito problema” -Maurício Faria.
A escassez de água
A surpresa com o nível de água extremamente baixo para uma estação teoricamente de cheia pode ser explicada pela intervenção desordenada na bacia do São Francisco. A falta de cobertura vegetal, “principalmente nas porções mais altas da bacia, faz com que a água da chuva escoe com mais velocidade. O rio enche rápido e esvazia rápido também”, afirma Maurício.
De acordo com o pesquisador, o problema pode afetar os resultados da pesquisa:
“Potencialmente, pode ser que sim. A falta de cobertura vegetal aumenta o escoamento superficial. Isso pode levar a um aumento do carreamento [transporte] de sedimentos, fertilizantes, defensivos etc. para os rios”.
O projeto Opará é uma iniciativa da Fundação de Apoio ao Desenvolvimento do Ensino Superior do Norte de Minas (Fadenor), em parceria com a Universidade Estadual de Montes Claros (Unimontes), o Ministério Público de Minas Gerais (MPMG) e viabilizado pelo Projeto Semente.
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